A Voz do Chorinho ou os Apelos da Memória
«Recordo. Recordar é viajar, diz a poesia do senso comum. Viajar de novo.
Chegar ao Rio de noite, por avião, é coisa que se não diz. Os lábios apertam-se, as palavras, aflitas de emoção, recolhem ao mais fundo da garganta e só os olhos se abrem de incontido espanto. Depois emudecem, também eles. Cativos da beleza inaudita. Rosário ou presépio, a imagem é imperfeita. Imperfeitas todas as imagens que tentem captar o espectáculo das luzes que lá em baixo se derramam, se dispõem, compõem figuras geométricas, umas, outras de puro acaso.
Regresso ali ao som desta música plangente que me adormece os ouvidos. O chorinho. Ouvido primeiro em casa da Cinda, belo de mais para ser dela apenas, quis partilhá-lo connosco.
Regresso ali ao som dessa voz. Respondo aos apelos insistentes da memória.»
— A Voz do Chorinho, Albano Martins